Vamos falar sobre mindfulness?

Se você tem interesse em clínica comportamental e está lendo este texto, você já deve ter ouvido falar sobre mindfulness. Você pode mesmo já ter lido algum texto a respeito. Mas, com certeza, você já teve essa experiência. Você saberia identificar esses momentos? Mais, você saberia emprega-lo em benefício próprio?

Se eu não errei no palpite e você realmente já ouviu falar sobre mindfulness, isto se deve a um crescente interesse por essa prática, especialmente no campo da psicoterapia. No Brasil, ela vem ganhando espaço na literatura e nos congressos sobre clínica cognitiva e comportamental, muito através das terapias comportamentais contextuais, como a Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Comportamental Dialética, que incorporam técnicas de mindfulness em suas intervenções1.

Apesar desse interesse relativamente recente para a área, o mindfulness não é uma prática atual, pelo contrário, ele vem de práticas orientais milenares de meditação2. Oriundo da palavra mindful, que significa ser consciente, mindfulness é traduzido como “atenção plena”, e envolve estar alerta momento a momento2. Deu para entender? Acredito que não. O conceito de mindfulness é difícil de explicar, difícil de entender, e mais difícil ainda de praticar (com raras exceções).

Mas vamos tentar. Para começar, vou trazer como exemplo um dos exercícios básicos de mindfulness, o de respiração: a instrução geral consiste em sentar-se confortavelmente, e observar sua respiração, sem controlá-la, apenas observar a entrada e saída do ar e sentir as sensações físicas provenientes desses movimentos. Sempre que a atenção se desviar da respiração, especialmente para pensamentos e sentimentos que surgem no decorrer do processo, o participante deve observar que isto ocorreu, deixá-los ir e retornar gentilmente sua atenção novamente para a respiração2,3.

Neste exercício é possível observar os dois componentes que Bishop et al. (2004) usaram para definir operacionalmente o mindfulness: (1) a autorregulação da atenção para a experiência imediata e (2) a postura de curiosidade, abertura e aceitação.

Autorregulação da atenção envolve prestar atenção, intencionalmente, às experiências do momento presente3. No exercício acima, o foco da atenção foi a respiração e as sensações físicas correlatas. Assim também, outros exercícios podem focar nas reações corporais (body scan), posturas de yoga, atividades como andar, degustar, etc 2,4. Independente do exercício, o importante é estar atento às atividades realizadas e às mudanças de pensamentos, sentimentos e emoções, sem se deixar levar por elas, ou seja, sem se engajar em sequências de pensamentos e racionalizações a ponto de esquecer a proposta.

Deve ficar claro aqui que a proposta não é “não pensar”, pois esta resposta é inevitável. A resposta a ser treinada é exatamente a cada pensamento, observá-lo (“Ok, agora estou pensando o que vou fazer após a sessão.”) e voltar a atentar para a atividade. Ir, e voltar… Não é deixar de ir, mas aprender a voltar ao observar que foi.

Associado a isto, o segundo componente envolve ter uma postura de curiosidade, abertura e aceitação frente à experiência: curiosidade acerca das diferentes reações corporais, sem atribuir valores a elas, abertura a todo tipo de reação, seja agradável ou desagradável, e aceitação dos pensamentos e sentimentos que surgem, sem tentar suprimi-los ou modificá-los3. Assim como o objetivo não é não pensar ou sentir, o objetivo também não é se sentir bem, já que estas características indicam que todo tipo de reação deve ser observada e aceita3.

Assim, o mindfulness é uma forma de se relacionar com suas experiências, toda experiência, agradável ou desagradável. É uma forma de se relacionar com as experiências da vida. Ele pode ser aplicado a tudo, por isto você provavelmente já deve ter experimentado. Ocorre com mais facilidade em atividades intrinsecamente prazerosas, como dançar (no meu caso), para outros cantar, tocar instrumentos musicais, desenhar, jogar, correr5, e se torna muito mais difícil em atividades pouco prazerosas, onde “ligamos o piloto automático”. O importante é saber usar os exercícios a seu favor, quando são mais úteis.

Agora, neste exato momento, não há nada que me deixe triste, zangada, chateada. Enquanto escrevo este texto, diversas situações podem ocorrer: um mosquito me distraindo, pensamentos e sensações, alguns dos quais mesmo depreciativos (“eu não vou conseguir, este texto está horrível, outros escrevem muito melhor que eu…”), muitos sequer relacionados à tarefa (“ah, batata frita…”). Mesmo podendo ser verdadeiros (por exemplo, muitas pessoas escrevem melhor que eu), mas em nada esses pensamentos me ajudarão a finalizar a tarefa que tanto almejo. Pelo contrário, é o exercício de observá-los (“Estou distraída com o mosquito agora, estou tendo esses pensamentos agora”) e voltar ao texto, treinado no mindfulness, que pode me permitir concluí-lo.

Ainda que houvesse uma situação ambiental claramente aversiva, como o meu computador quebrar e eu perder este texto, permanecer no momento presente me permite tentar não ir além do aqui e agora: naturalmente sentir-se mal por perder todo o trabalho até então realizado. Nada mais, sem se descabelar, se achar isso ou aquilo ou tratar mal as pessoas que tentam ajudar (esta, inclusive, é uma queixa muito comum na clínica, como ser grosseiro às pessoas que amam, e que só inclui mais tristeza e culpa à situação).

O objetivo desses exercícios não é abolir os pensamentos e sentimentos, mas diminuir o seu controle sobre nós, de forma a permitir que nos concentremos no que realmente é relevante para agora. Eu os considero especialmente difíceis de serem treinados e mantidos em uma sociedade que constantemente ensina a estar sempre ouvindo e seguindo seus pensamentos. Isto pode ser muito útil em muitos momentos, mas o “poder dos pensamentos” talvez não atraia tantos benefícios assim. Talvez, concentrar-se em um passo de cada vez atraia muito, mas muito mais. Assunto para nossos próximos encontros.

Leia mais em Comporte-se

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