Integrando ACT e FAP para lidar com esquivas

É comum que, durante um processo de psicoterapia, o terapeuta identifique ações do paciente que o impedem de lidar de forma mais satisfatória com algumas situações importantes em sua vida diária. Dentre essas situações, algumas se tratam claramente de tentativas ineficazes de evitar ou eliminar algo considerado ruim. Outras vezes, a ação de tentar evitar ou eliminar uma estimulação aversiva ocorre no próprio contexto de terapia, então, o terapeuta tem a oportunidade de trabalhar diretamente com o comportamento-problema, de modo a auxiliar o paciente a identificar a ineficácia de suas esquivas e ensinar comportamentos alternativos.

O fato é que lidar com as esquivas do paciente nem sempre é tarefa fácil para o terapeuta. Frequentemente, não basta apenas informar a ele sobre sua esquiva e seus efeitos contraprodutivos, aliás, dizer isso de forma clara e direta pode evocar ainda mais comportamentos de esquiva do paciente, por exemplo:

Evento antecedente Resposta Consequência
Terapeuta fala para o paciente sobre ele parecer evitar falar de situações de sua vida que foram traumáticas. Paciente sente-se irritado.Paciente diz que o terapeuta está errado, e começa a falar de como sua semana foi agradável. (Esquiva) Terapeuta observa que o paciente evitou mais uma vez falar de situações difíceis, mas opta por deixá-lo falar sobre como sua semana foi boa. (R-)

Tabela 1. Análise de uma contingência hipotética de esquiva em sessão terapêutica.

No exemplo hipotético apresentado na Tabela 1, o terapeuta tenta explicar ao paciente que ele está fazendo esquiva de assuntos difíceis em sessão, mas como resultado o paciente evita novamente abordar o assunto e engaja-se em descrever situações agradáveis. O terapeuta pode ter ações diferentes diante dessa esquiva, mas em alguns casos ele acaba optando por deixar o paciente falar daquilo que lhe é mais confortável, reforçando negativamente (R-) a esquiva do paciente.

Dessa forma, é importante que o terapeuta conheça alternativas potencialmente produtivas para intervir. Assim, ele tem condições de experimentar intervenções variadas e observar quais delas lhe trarão as consequências objetivadas como, por exemplo, o paciente reconhecer sua esquiva, ou falar sobre algo difícil que lhe ocorreu, ou falar sobre como ele se sente ao ter que abordar assuntos difíceis, enfim, o comportamento esperado do paciente irá depender diretamente da formulação de cada caso.

Dentre as alternativas para lidar com esquivas, é possível valer-se da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP).

A ACT é baseada na filosofia do Contextualismo Funcional, portanto, na prática psicológica o terapeuta analisa a função dos comportamentos do paciente a partir do contexto em que eles ocorrem e suas histórias de aprendizagem. Nessa perspectiva, as esquivas do paciente também são entendidas como ações que objetivam a eliminação de estimulações aversivas, sejam externas ou internas. Assim, ao se deparar com uma situação aversiva, é provável que a pessoa tenha sensações e sentimentos de mal-estar, raiva, irritação, desgosto, tristeza, desânimo, etc.,  então ela passa a evitar tanto os estímulos externos ao organismo como esses sentimentos e sensações, e essa segunda condição de esquiva chama-se esquiva experiencial. O problema neste tipo de esquiva é que o comportamento de evitar ou eliminar uma sensação ou sentimento aversivo não é produtivo na resolução da situação-problema que está produzindo tais sensações e sentimentos. Então, como meta geral de trabalho, o terapeuta busca ensinar o paciente a vivenciar o momento presente, suas emoções, sentimentos, pensamentos e memórias, definir seus valores e metas importantes, e permanecer comprometido com eles, contribuindo para a redução das esquivas contraprodutivas (Saban, 2015).

A FAP é baseada na filosofia do Behaviorismo Radical, que também é uma teoria contextual, ou seja, que permite analisar a função dos comportamentos a partir do contexto em que ocorrem e de suas histórias de aprendizagem. É um modelo de psicoterapia que se vale da própria relação entre terapeuta e paciente para lidar com comportamentos problemáticos (CRBs1) e facilitar comportamentos de melhora (CRBs2). Isso implica que tais comportamentos ocorram no contexto de sessão terapêutica e que sejam funcionalmente semelhantes aos comportamentos que o cliente emite em sua vida diária. Nessa perspectiva, os comportamentos-problema que ocorrem em sessão terapêutica frequentemente podem se constituir em esquivas, ou seja, a relação terapêutica ou o próprio terapeuta – naturalmente, sem que necessariamente precise criar uma condição artificial – pode fornecer estimulações aversivas, as quais podem despertar respostas emocionais desagradáveis no paciente e, então, este age de modo a reduzir ou eliminar a estimulação aversiva, seja aquela fornecida externamente na relação terapêutica, sejam as estimulações aversivas internas como as respostas emocionais desagradáveis. Como foco, o terapeuta busca criar condições favoráveis à emissão de comportamentos alternativos na relação terapêutica, os quais podem ser reforçados positivamente e naturalmente pelo terapeuta (Kohlenberg, Tsai & Kanter, 2011).

ACT e FAP são modelos de psicoterapia diferentes, mas se aproximam em alguns pontos, como na tentativa de trabalhar os comportamentos de esquiva do paciente. São por essas aproximações que, algumas vezes, ambos os processos são mesclados em prol de um mesmo objetivo.

Texto de: Mônica Camoleze

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